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Valeu a passagem

In impressões on outubro 30, 2009 by @rustymind

 

Está insuportável a quantidade de pedintes nos ônibus aqui em Recife. Eu me sentia preconceituoso por achá-los incômodos, mas hoje vi que tenho razão:

Estava eu dentro do ônibus nas minhas tradicionais idas ao laboratório, como sempre atrasado para meu destino, com o iPod ao pé do ouvido e escutando minhas intermináveis playlists com toda a sorte de música. Entrou uma senhora com aparência humilde, parecia mesmo aquelas moradoras de sítio que via na feira, quando pequeno, valendo-se do velho argumento ‘Tenho uma filha doente..e blá blá blá’, em alto e bom som de discusso apelativo.  Não fiz cara nenhuma e, mentalmente, desejei uma resposta para meus pensamentos, incrédulo, voltei às minhas músicas.

Eis que chegamos a uma nova parada da imensa Av.Caxangá, onde uma senhora mais velha, com jeito de doida, entrou repentinamente e já foi falando alto e por cima da outra. Um atropelo.

Tirei o fone de ouvido para ver no que ia dar a história. Diante de surdos, mudos, cantadores, trombadinhas e camponesas, ali parecia uma história diferente daquelas que estou habituado a presenciar todos os dias quando vou/volto à Universidade.

A velha senhora não hesitou e deu continuidade…

”Em nome de…Jesus!  Qualquer coisa serve..o pouco pra Deus é muito!’ (coloque aqui um sotaque nordestino+melodia de cantoria)

[COITADA] da outra

Fiquei com pena da outra pedinte que até parecia honesta e que fazia aquilo, ou por necessidade ou por ‘vitimismo’ dos problemas sociais. Meu pensamento foi rápido, achei mesmo que não era exagero meu, ver a Máfia do Esmoleiro, tão clara perante os meus olhos.

A primeira foi caladinha para o canto e puxou a cordinha.  Senti um aperto na goela, mas todo o meu dinheiro era 30 centavos (sim, meu amigo e minha amiga, vida de estudante universitário não é fácil). O motorista acabou queimando a parada e ela falou mais alto pedindo parada. Eis que a intrusa grita ”Não para não, ela desce na outra”.  Contudo, ele ouviu e a mesma saiu do veículo.

O homem é lobo do homem, por certo.

Comecei a rir sem acreditar no que via, depois percebendo que ninguém estava nem aí para o tamanho da ousadia daquela mulher, que depois ainda veio pedir qualquer coisa diretamente a mim, quase batendo no meu ombro. Inútil!  Lamentei não ter dinheiro, lamentei por viver no Brasil, lamentei por me achar preconceituoso. É só a realidade, desconhecida por ‘muitos nós’ , presente como o ar. Letal e sofrida para a maioria!

A desigualdade social não é estática, insistimos em esquecer…

 

Saí com uma resposta da vida,  pensativo sobre o mundo em que vivo e quem sabe até um ser-humano melhor. Estou certo que momentos como esse valem como uma verdadeira passagem.

Hasta la vista!


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2 Respostas to “Valeu a passagem”

  1. Meniiino, hoje à tarde escrevi um textinho quando cheguei à universidade pra postar assim que chegasse em casa. Isso tudo tem me incomodado bastante. Às vezes, me sinto tão egoísta por ignorar essas pessoas. Mas ao mesmo tempo, estou tão calejada de ver as mesmas pessoas pegando o mesmo ônibus para pedir…

  2. Deve ter alguma coisa melhor pra fazer do que se desesperar…

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